Sobre homens e pássaros
Não é que eu tenha medo de voar. Mas toda vez que faço o check-in e seguro a passagem em mãos, me sinto como quem empunha um bilhete de loteria. A diferença é que o prêmio pode ser uma morte espetacular e uma menção caudilhesca na Zero Hora. Convenhamos, a coisa toda é uma roleta russa. Você sabe que aquele monstro de metal, borracha, fluidos, intricados mecanismos e armações precisas, pode se desmanchar em questão de segundos mais cedo ou mais tarde.
Enquanto o avião desliza suavemente na pista a fim de posicionar-se pra alçar vôo, tudo parece muito bem. O problema é quando as turbinas realmente começam a funcionar. É ali, acelerando a uma velocidade burlesca, sentindo a força gravitacional empurrar teu corpo frágil contra a poltrona dura, cercado pelo rugido da combustão de sabe-se lá quantos litros de jet-fuel e, finalmente, vendo a terra firme se apequenar, que você percebe que o controle da situação está completamente fora da sua alçada.
Nessa hora sempre tenho a impressão de que o bicho está arremetendo rápido demais e que o ângulo excessivamente aberto vai fazer com que a cauda do avião se espatife contra o chão antes que o vôo alcance uma altitude segura, levando toda aquela massa alva a despedaçar-se a 600km\h contra o negrume do asfalto.
Vencido o denso véu das nuvens, a situação melhora um pouco. Depois de um tempo, você acaba se acostumando às eventuais turbulências. Mais eventuais e menos tranqüilizantes são os barulhos de origem desconhecida que insistem em soar de vez em quando, acompanhando guinadas, subidas ou descidas súbitas do avião.
Os cliques e claques sempre me fazem imaginar um parafuso maroto escapando da porca. Ou uma turbina mostrando sinais de cansaço. Ou um prenúncio de despressurização, uma rachadura, um piloto desequilibrado levando a máquina além de seus limites, uma esquizofrênica testando a saída de emergência, sei lá.
São tantas as possibilidades de acontecer alguma merda que eu até me surpreendo que elas não ocorram com mais freqüência.
A dura realidade é que, após efetuado o check-in, a sua vida simplesmente não depende mais de você. Está nas mãos de uma complexa interação entre homem, mundo e máquina, da qual os passageiros são figurantes sem maior relevância no enredo. A não ser que um deles seja o estopim da própria merda, como costuma acontecer nos states.
Mas aí é problema deles.
Eu me contento em não comprar mais bilhetes de loteria.
Porque, se um dia ganhar, não ando mais de avião.
