Pastiche Texano

Mais alguém não conseguiu engolir a cara de cão arrependido do Sr. presidente dos states em seu pronunciamento público sobre a morte de Benazir Bhutto?
Primeiro porque o atual líder paquistanês e principal beneficiário do atentado é o peão perfeito no tabuleiro armado por Bush no oriente médio. Uma olhadela nas credenciais de Pervez Musharraf é o suficiente para constatar coisas que fariam a Condolezza Rice eriçar os pelinhos da nuca de satisfação.
Musharraf é um general cuja escalada ao mando discricionário remonta a um golpe de estado e, não obstante, sempre empenhou-se em operar as engrenagens da economia paquistanesa conforme a cartilha liberal. Em tempo, admirador confesso de líderes autoritários de direita, o militar se autodenomina um político moderado, liberal e progressista. Em 2002, pronunciou-se abertamente contra o terrorismo e o extremismo, cedendo o solo de seu país para servir de base para operações ianques no Afeganistão e Iraque. Em 2004, encontrou-se com Bush e reafirmou os laços de camaradagem, demonstrando uma compassiva submissão para com as querelas travadas em território vizinho em troca da exclusão temporária do Paquistão dos planos de democratização à base do tacape texano.
Benazir, por outro lado, é adversária política de longa data de Musharraf, proveniente de uma tradicional família vinculada às invectivas comunistas da USRR no mundo árabe. Seu partido posicionava-se na centro-esquerda de um país em eterna convulsão e, em seu longo currículo, Benazir já apoiou o Taliban (também já se arrependeu), e por mais de uma vez mostrou-se disposta a combater a intervenção americana em terras abençoadas por Alá.
Sua morte é quase tão conveniente a Washignton quanto o é para Musharraf. Há pouco Bush demonstrou interesse em reforçar o contingente de futuros jovens mortos no Iraque. E, com a opinião pública desfavorável, a última coisa da qual ele precisa é um vizinho democrático chato e sem vontade de cooperar. Principalmente um vizinho democrático chato com 150 milhões de habitantes, uma economia crescente e algumas bombas nucleares na manga.
Aliás, graças a Alá que o Paquistão pode fabricar ogivas atômicas. Não fosse por isso, o próximo capítulo poderia ser uma invasão americana a fim de forçar a democracia à melhor maneira old west de guerrear pela paz. Quiçá com o apoio indiano. É claro que a probabilidade de um negócio desses acontecer é baixíssima, até porque o velho cowboy já não tem mais força política pra sustentar outro conflito. Mas vai saber…

