Pastiche Texano

December 30, 2007

Me dá colo?

 

Mais alguém não conseguiu engolir a cara de cão arrependido do Sr. presidente dos states em seu pronunciamento público sobre a morte de Benazir Bhutto?

Primeiro porque o atual líder paquistanês e principal beneficiário do atentado é o peão perfeito no tabuleiro armado por Bush no oriente médio. Uma olhadela nas credenciais de Pervez Musharraf é o suficiente para constatar coisas que fariam a Condolezza Rice eriçar os pelinhos da nuca de satisfação.

Musharraf é um general cuja escalada ao mando discricionário remonta a um golpe de estado e, não obstante, sempre empenhou-se em operar as engrenagens da economia paquistanesa conforme a cartilha liberal. Em tempo, admirador confesso de líderes autoritários de direita, o militar se autodenomina um político moderado, liberal e progressista. Em 2002, pronunciou-se abertamente contra o terrorismo e o extremismo, cedendo o solo de seu país para servir de base para operações ianques no Afeganistão e Iraque. Em 2004, encontrou-se com Bush e reafirmou os laços de camaradagem, demonstrando uma compassiva submissão para com as querelas travadas em território vizinho em troca da exclusão temporária do Paquistão dos planos de democratização à base do tacape texano.

Benazir, por outro lado, é adversária política de longa data de Musharraf, proveniente de uma tradicional família vinculada às invectivas comunistas da USRR no mundo árabe. Seu partido posicionava-se na centro-esquerda de um país em eterna convulsão e, em seu longo currículo, Benazir já apoiou o Taliban (também já se arrependeu), e por mais de uma vez mostrou-se disposta a combater a intervenção americana em terras abençoadas por Alá.

Sua morte é quase tão conveniente a Washignton quanto o é para Musharraf. Há pouco Bush demonstrou interesse em reforçar o contingente de futuros jovens mortos no Iraque. E, com a opinião pública desfavorável, a última coisa da qual ele precisa é um vizinho democrático chato e sem vontade de cooperar. Principalmente um vizinho democrático chato com 150 milhões de habitantes, uma economia crescente e algumas bombas nucleares na manga.

Aliás, graças a Alá que o Paquistão pode fabricar ogivas atômicas. Não fosse por isso, o próximo capítulo poderia ser uma invasão americana a fim de forçar a democracia à melhor maneira old west de guerrear pela paz. Quiçá com o apoio indiano. É claro que a probabilidade de um negócio desses acontecer é baixíssima, até porque o velho cowboy já não tem mais força política pra sustentar outro conflito. Mas vai saber…

 

Meu querido diário

December 28, 2007

Cara, não sei não, mas às vezes, lendo coisas antigas e comparando às atuais, acho que a Fabico me emburreceu.

Outras vezes, tenho certeza. 

Sobre homens e pássaros

Não é que eu tenha medo de voar. Mas toda vez que faço o check-in e seguro a passagem em mãos, me sinto como quem empunha um bilhete de loteria. A diferença é que o prêmio pode ser uma morte espetacular e uma menção caudilhesca na Zero Hora. Convenhamos, a coisa toda é uma roleta russa. Você sabe que aquele monstro de metal, borracha, fluidos, intricados mecanismos e armações precisas, pode se desmanchar em questão de segundos mais cedo ou mais tarde.

Enquanto o avião desliza suavemente na pista a fim de posicionar-se pra alçar vôo, tudo parece muito bem. O problema é quando as turbinas realmente começam a funcionar. É ali, acelerando a uma velocidade burlesca, sentindo a força gravitacional empurrar teu corpo frágil contra a poltrona dura, cercado pelo rugido da combustão de sabe-se lá quantos litros de jet-fuel e, finalmente, vendo a terra firme se apequenar, que você percebe que o controle da situação está completamente fora da sua alçada.

Nessa hora sempre tenho a impressão de que o bicho está arremetendo rápido demais e que o ângulo excessivamente aberto vai fazer com que a cauda do avião se espatife contra o chão antes que o vôo alcance uma altitude segura, levando toda aquela massa alva a despedaçar-se a 600km\h contra o negrume do asfalto.

Vencido o denso véu das nuvens, a situação melhora um pouco. Depois de um tempo, você acaba se acostumando às eventuais turbulências. Mais eventuais e menos tranqüilizantes são os barulhos de origem desconhecida que insistem em soar de vez em quando, acompanhando guinadas, subidas ou descidas súbitas do avião.

Os cliques e claques sempre me fazem imaginar um parafuso maroto escapando da porca. Ou uma turbina mostrando sinais de cansaço. Ou um prenúncio de despressurização, uma rachadura, um piloto desequilibrado levando a máquina além de seus limites, uma esquizofrênica testando a saída de emergência, sei lá.

São tantas as possibilidades de acontecer alguma merda que eu até me surpreendo que elas não ocorram com mais freqüência.

A dura realidade é que, após efetuado o check-in, a sua vida simplesmente não depende mais de você. Está nas mãos de uma complexa interação entre homem, mundo e máquina, da qual os passageiros são figurantes sem maior relevância no enredo. A não ser que um deles seja o estopim da própria merda, como costuma acontecer nos states.

Mas aí é problema deles.

Eu me contento em não comprar mais bilhetes de loteria.

Porque, se um dia ganhar, não ando mais de avião.

Darwin who?!

December 17, 2007

 

Como explicar a transição dos animais aquáticos para o meio terrestre em um quadro televisivo, sem recorrer uma única vez à palavra "evolução"?

Também não vale "seleção natural". 

Pergunte ao Fantástico. Eles conseguem.

É mais ou menos como explicar o movimento dos corpos celestes sem falar em gravidade. Só que mais difícil. 

É por essas e outras que, em plena universidade federal, uma professora de sociologia - justiça seja feita, muito versada em sua especialidade - fala em sala de aula que espécies novas nascem da comunhão entre duas diferentes.

Pra variar, fico com Richard Dawkins: o legado de Charles Darwin constitui a teoria popular mais mal compreendida da história da ciência. 

And the clock starts ticking again

December 14, 2007

Foi o tal do Ortega y Gasset quem disse "eu sou eu mais minhas circunstâncias".

Sentado no auditório da Fabico, ouvindo impaciente o discurso puído do diretor da FASE (Fundação Assistencial Sócio-Educativa, antiga FEBEM), composto basicamente por três expressões surradas e um vasto arsenal lingüístico de frases de impacto, me pus a pensar que, pra muita gente, as circunstâncias são muito maiores do que a metade da laranja.

Há de ser esse o caso, por exemplo, do Jefferson. Um garoto que, dois dias antes de ser liberado da entidade, matou alguém. Matou, disseram-me os colegas, pra não ser morto.

Só conheci o rapaz na sala de aula, a pretexto de uma oficina de rádio que eu ajudava a ministrar. Mas, apesar de anos-luz de distância da realidade dele, me permito fazer uma observação. Vão à merda, assistentes sócio-educativos, com esse discursinho de oportunidade, escolhas e vencedores. O Jefferson não teve escolha. Não teve tempo de galgar uma oportunidade e, agora, o máximo que vai vencer na vida é uma partida ou outra de velha nas paredes do presídio.

Ele era o mais desenvolto nas atividades da oficina. Fazia outros cursos, me parecia um garoto esforçado, com metas e objetivos bem sedimentados. Mas o ego de Jefferson não teve vez, ele foi só circunstância.

Pensei em trocar o nome, preservar sua identidade cá nesse pêndulo que pouco tem oscilado. Mas, convenhamos, quê importa. Garotos assim não existem mais pro mundo, não existem pra ninguém. A não ser quando se fazem ouvir num estampido de bala. 

Às vezes, nem isso.