Fleuma
O que, afinal, há de ecoar pela eternidade? 14 bilhões de anos de evolução do universo, partindo do nada, rumando a lugar nenhum. Num instante somos hidrogênio, noutro, complexos organismos vivos e, pior, pensantes. Pra quê?
Estava entediado. Simples assim. Enfadado como nunca estivera, cansado das tardes modorrentas, das noites iguais, das conversas insípidas, as loiras que passam, o álcool que finda, a ressaca que chega, os dias que se recusam a andar, os sons que se calam, a tristeza que não tarda.
Irritava-se ao olhar seus livros, dúzias de intelectuais achatados em celulose. Pouco lhe tocavam seus amigos, suas mulheres, seus discos. Nem a família causava-lhe muito mais do que uma leve comoção de conveniência. O lento ritmar do cotidiano matava-o pouco a pouco.
Ficou obcecado pela idéia do eterno retorno. As palavras de Nietzsche ainda ribombavam na mente conturbada:
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha de poeira!’”
Parafraseando algum psicanalista que sabiamente escrevera "a vida é o intervalo entre o túmulo do útero e o útero do túmulo", alguém há de dizer um dia: "do túmulo do átomo aos átomos do túmulo.", e estará correto.
Errado estava Aquiles, julgando que poderia viver para sempre, imortalizado nos atos heróicos praticados em vida. Vê, até que durou bastante. Teve sorte pois os herdeiros da cultura grega tornaram-se os bastiões do desenvolvimento da civilização ocidental. Mas até quando? A ampulheta não pára. Até a seiva do heroísmo seca. Os livros se perdem, os homens morrem, os valores não duram, as civilizações voltam ao pó, o sol ainda há de se apagar. A entropia não cessa de ceder. Um dia, mesmo Aquiles quedará igualado a todos os outros que por aqui passaram, sem uma glória a mais, sem uma glória a menos. Poeirinha de poeira na imensidão do cosmos.
Daqui a mil anos, quem lembrará de nós? Daqui a um milhão, haverá alguém para lembrar?
Tudo há de ser o mesmo, sempre. E não apenas porque assim diz a essência humana. É que não fomos moldados pelos genes para destilar de cada situação um sentimento excitante, de descoberta ou felicidade errante. Não. Fomos moldados para nos reproduzir, e ponto. O resto vem a reboque e a inconstância faz parte do negócio. Se vivêssemos assim, eternamente abobados, felizes, oligofrênicos, acomodados à realidade, não sairíamos à cata de novas parceiras com tanta ânsia, e os genes teriam uma taxa menor de propagação. Ato contínuo, não há motivos para a constância no comportamento humano. O pêndulo aqui governa.
Sábios são os franceses, cujas frases têm sabedoria para todas as horas. Tout passe, tout casse, tout lasse. É de se duvidar se sabem usá-las tão bem quanto os outros povos. Talvez os francófonos não enxerguem tanta graça nos seus ditames. Prova disso é que nós, cá em outro continente, utilizamos as máximas francesas orgulhosamente, ainda que saibamos a tradução e mesmo que, em português, não soem lá tão mal assim. Senão vejamos; Tudo passa, tudo quebra, tudo cansa. O conteúdo é o mesmo, o mistério está na forma.
Na forma…

invejo alguém que usa, com categoria, a palavra oligofrênico.
Comment by julia — June 19, 2007 @ 9:17 pm
cê gosta de loiras hein?! hehe
Belo texto.
Comment by . — June 19, 2007 @ 9:49 pm
o pendulo tem que voltar a se movimentar…
ou não! hehe
=*
Comment by Suzana — July 25, 2007 @ 8:05 pm
estou esperando…
Comment by Suzana — August 1, 2007 @ 9:19 pm
dois meses abandonado, pobre blogue
tsctcs
Comment by Suzana — August 21, 2007 @ 9:24 pm
estou esperando lalala
Comment by Suzana — August 28, 2007 @ 10:07 pm