Metalinguagem

June 10, 2007

Os filhos do intelectualismo francês, órfãos de Deleuze, têm pavor da objetividade, da clareza, da unidade textual e da argumentação limpa e sucinta. Tudo o que escrevem é vago, impreciso, pernóstico, truncado e, não raro, sem sentido. Não é que não haja conteúdo algum permeando a retórica engomada e nauseante em questão, mas as proposições teóricas jazem tão profundamente enterradas num lamaçal de tão complicado palavreado, que resgatar qualquer informação torna-se tarefa digna de Homero. Embora, neste caso, não exista recompensa à altura do esforço, posto que quando o núcleo de conhecimento envolto pelo jargão pós-modernista é exposto, tudo o que sobra são, com freqüência assustadora, hipóteses pálidas e sem vida, repetitivas e insossas.

A impressão geral é de que o embrulho de palavras cuidadosamente escolhidas para tecer uma rede impenetrável de entroncamentos de vocábulos e orações invertidas tem o único objetivo de esconder a fragilidade da tese. E isso é celebrado como uma típica manifestação da era pós-moderna, uma mímica mal feita do caos do universo, da análise do todo, das idéias que nascem e morrem sem nunca tangenciar a realidade, a inexistência de padrões e métodos, e, sobretudo, do sentido dúbio da verdade e da invalidade do real.

Mas há algo de distintamente louvável nesta atitude negligente para com a objetividade da palavra. Há uma coerência entre o discurso empregado pela massa pós-moderna, vago, difuso, e a maneira pelo qual o transmitem.

Pouca coisa é tão comovente quanto o esforço lúcido de acadêmicos que abraçaram honestamente o pós-modernismo no início de sua formação intelectual e mostram-se, no auge da experiência, incapazes de gravar nos seus alunos impressão maior do que a vasta imprecisão. Alguns, após terem desperdiçado décadas de estudos pesarosos e toneladas de preciosa massa cinzenta decifrando o idioma deleuziano,  dedicam-se a passar à frente os conhecimentos que desenterraram das covas mais obscuras das academias francesas de forma inteligível para seus alunos. Este é um erro fatal, pois, ao retirar a grossa casca de proteção das teorias pós-modernistas, seu verdadeiro sentido fica exposto, deixando a fragilidade à vista de todos. A coisa faz-se tão óbvia que até os alunos de graduação, com seus olhos amadores, são capazes de perceber a inocência e frouxidão das teses.

Aproveitando-se da carência de mecanismos que possam pôr a prova o corpus teórico elencado no âmbito do relativismo cultural e do pós-modernismo, os órfãos de Deleuze fazem pesquisa científica com as entranhas. A ciência pós-moderna não requer premissas, prescinde de continuidade lógica, não há um conjunto de teses que a precede, pois carece de qualquer apelo prévio à razão. O pós-modernismo sustenta-se sobre si mesmo, apropria-se do que lhe convém e entrega muito pouco de volta como substrato das pesquisas realizadas sob a sua égide.

E seus súditos crescem como se expande a erva daninha, aproveitando-se de espaços desocupados, agarrando cada fatia de mistério existente no mundo e lhe conferindo todo o valor poético que, dizem, a ciência lhes usurpou. Deturpam conceitos que não compreendem, em especial da física moderna, apropriando-se deles com raro consentimento de quem de fato entende algo de mecânica quântica.

Seria de se supor que é necessário ao menos ter talento ou treinamento para convencer alguém de que há algo sério a ser estudado no extenso rol de conhecimentos da bruma intelectual pós-modernista. Não é. O físico Alan Sokal demonstrou este fato ao publicar na Social Text, uma conceituada revista norte-americana dedicada à difusão do irracionalismo nas ciências sociais, um artigo com um nome bastante sugestivo e pomposo: “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica.” Carregado de jargão pseudo-científico e alegando o fim da objetividade nas ciências, o fracasso da visão de mundo organizacionista e advogando uma nova era de conhecimento, o texto nada mais é do que uma robusta paródia de todo o quiproquo dos órfãos de Deleuze. Mas, para os editores da Social Text, fazia todo o sentido do mundo.

O Ícaro pós-moderno adeja tranqüilamente pelos ares ainda intoxicados com o fantasma do positivismo. Sem obstáculos, apropriando-se do que lhe convém e esquivando-se de forma rasteira dos óbvios desafios que as leis naturais impõem às suas asas, parece haver pouco que preocupe o vôo suave sobre as correntes de ar quente. Mas esta serenidade não há de se prolongar. Cedo ou tarde, quando a febre do relativismo cultural passar e o método científico, julgado morto nos cânones de Deleuze, continuar a erguer aviões cada vez mais velozes e seguros aos céus, as asas de Ícaro revelarão sua fragilidade intrínseca. Mal planejadas, suas hastes carecem de aerodinâmica e suas plumas são incapazes de sustentar o peso de seu corpo. Então, nosso ícone alado chocar-se-á com um Boeing em pleno vôo, um monstro de metal, borracha, combustível, armações precisas e intricados mecanismos que transpiram complexidade organizada - um Boeing cujo nome é realidade.

1 Comment »

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  1. Diante da frase “E seus súditos crescem como se expande a erva daninha, aproveitando-se de espaços desocupados”, podemos perceber que a filosofia de Deleuze e Guattari, não pode se traduzie em ditos sem significados, pois, se seus suditos conseguem tecer rizomas do incompreensível aos olhos de alguns, isso já aponta para uma possível aproximação de coerência em seus escritos. Os rizomas, entõa devem funcionar mesmo…

    Comment by Angelita — December 8, 2008 @ 10:17 am

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