Fleuma

June 19, 2007

O que, afinal, há de ecoar pela eternidade? 14 bilhões de anos de evolução do universo, partindo do nada, rumando a lugar nenhum. Num instante somos hidrogênio, noutro, complexos organismos vivos e, pior, pensantes. Pra quê?

Estava entediado. Simples assim. Enfadado como nunca estivera, cansado das tardes modorrentas, das noites iguais, das conversas insípidas, as loiras que passam, o álcool que finda, a ressaca que chega, os dias que se recusam a andar, os sons que se calam, a tristeza que não tarda.

Irritava-se ao olhar seus livros, dúzias de intelectuais achatados em celulose. Pouco lhe tocavam seus amigos, suas mulheres, seus discos. Nem a família causava-lhe muito mais do que uma leve comoção de conveniência. O lento ritmar do cotidiano matava-o pouco a pouco.

Ficou obcecado pela idéia do eterno retorno. As palavras de Nietzsche ainda ribombavam na mente conturbada:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha de poeira!’”

Parafraseando algum psicanalista que sabiamente escrevera "a vida é o intervalo entre o túmulo do útero e o útero do túmulo", alguém há de dizer um dia: "do túmulo do átomo aos átomos do túmulo.", e estará correto.

Errado estava Aquiles, julgando que poderia viver para sempre, imortalizado nos atos heróicos praticados em vida. Vê, até que durou bastante. Teve sorte pois os herdeiros da cultura grega tornaram-se os bastiões do desenvolvimento da civilização ocidental. Mas até quando? A ampulheta não pára. Até a seiva do heroísmo seca. Os livros se perdem, os homens morrem, os valores não duram, as civilizações voltam ao pó, o sol ainda há de se apagar. A entropia não cessa de ceder. Um dia, mesmo Aquiles quedará igualado a todos os outros que por aqui passaram, sem uma glória a mais, sem uma glória a menos. Poeirinha de poeira na imensidão do cosmos.

Daqui a mil anos, quem lembrará de nós? Daqui a um milhão, haverá alguém para lembrar?

Tudo há de ser o mesmo, sempre. E não apenas porque assim diz a essência humana. É que não fomos moldados pelos genes para destilar de cada situação um sentimento excitante, de descoberta ou felicidade errante. Não. Fomos moldados para nos reproduzir, e ponto. O resto vem a reboque e a inconstância faz parte do negócio. Se vivêssemos assim, eternamente abobados, felizes, oligofrênicos, acomodados à realidade, não sairíamos à cata de novas parceiras com tanta ânsia, e os genes teriam uma taxa menor de propagação. Ato contínuo, não há motivos para a constância no comportamento humano. O pêndulo aqui governa.

Sábios são os franceses, cujas frases têm sabedoria para todas as horas. Tout passe, tout casse, tout lasse.  É de se duvidar se sabem usá-las tão bem quanto os outros povos. Talvez os francófonos não enxerguem tanta graça nos seus ditames. Prova disso é que nós, cá em outro continente, utilizamos as máximas francesas orgulhosamente, ainda que saibamos a tradução e mesmo que, em português, não soem lá tão mal assim. Senão vejamos; Tudo passa, tudo quebra, tudo cansa. O conteúdo é o mesmo, o mistério está na forma.

Na forma…

With the memory of her last look…

June 11, 2007

Insensatez (how sensitive), saída das bocas de Sinatra e Tom, é muito, muito foda.

Metalinguagem

June 10, 2007

Os filhos do intelectualismo francês, órfãos de Deleuze, têm pavor da objetividade, da clareza, da unidade textual e da argumentação limpa e sucinta. Tudo o que escrevem é vago, impreciso, pernóstico, truncado e, não raro, sem sentido. Não é que não haja conteúdo algum permeando a retórica engomada e nauseante em questão, mas as proposições teóricas jazem tão profundamente enterradas num lamaçal de tão complicado palavreado, que resgatar qualquer informação torna-se tarefa digna de Homero. Embora, neste caso, não exista recompensa à altura do esforço, posto que quando o núcleo de conhecimento envolto pelo jargão pós-modernista é exposto, tudo o que sobra são, com freqüência assustadora, hipóteses pálidas e sem vida, repetitivas e insossas.

A impressão geral é de que o embrulho de palavras cuidadosamente escolhidas para tecer uma rede impenetrável de entroncamentos de vocábulos e orações invertidas tem o único objetivo de esconder a fragilidade da tese. E isso é celebrado como uma típica manifestação da era pós-moderna, uma mímica mal feita do caos do universo, da análise do todo, das idéias que nascem e morrem sem nunca tangenciar a realidade, a inexistência de padrões e métodos, e, sobretudo, do sentido dúbio da verdade e da invalidade do real.

Mas há algo de distintamente louvável nesta atitude negligente para com a objetividade da palavra. Há uma coerência entre o discurso empregado pela massa pós-moderna, vago, difuso, e a maneira pelo qual o transmitem.

Pouca coisa é tão comovente quanto o esforço lúcido de acadêmicos que abraçaram honestamente o pós-modernismo no início de sua formação intelectual e mostram-se, no auge da experiência, incapazes de gravar nos seus alunos impressão maior do que a vasta imprecisão. Alguns, após terem desperdiçado décadas de estudos pesarosos e toneladas de preciosa massa cinzenta decifrando o idioma deleuziano,  dedicam-se a passar à frente os conhecimentos que desenterraram das covas mais obscuras das academias francesas de forma inteligível para seus alunos. Este é um erro fatal, pois, ao retirar a grossa casca de proteção das teorias pós-modernistas, seu verdadeiro sentido fica exposto, deixando a fragilidade à vista de todos. A coisa faz-se tão óbvia que até os alunos de graduação, com seus olhos amadores, são capazes de perceber a inocência e frouxidão das teses.

Aproveitando-se da carência de mecanismos que possam pôr a prova o corpus teórico elencado no âmbito do relativismo cultural e do pós-modernismo, os órfãos de Deleuze fazem pesquisa científica com as entranhas. A ciência pós-moderna não requer premissas, prescinde de continuidade lógica, não há um conjunto de teses que a precede, pois carece de qualquer apelo prévio à razão. O pós-modernismo sustenta-se sobre si mesmo, apropria-se do que lhe convém e entrega muito pouco de volta como substrato das pesquisas realizadas sob a sua égide.

E seus súditos crescem como se expande a erva daninha, aproveitando-se de espaços desocupados, agarrando cada fatia de mistério existente no mundo e lhe conferindo todo o valor poético que, dizem, a ciência lhes usurpou. Deturpam conceitos que não compreendem, em especial da física moderna, apropriando-se deles com raro consentimento de quem de fato entende algo de mecânica quântica.

Seria de se supor que é necessário ao menos ter talento ou treinamento para convencer alguém de que há algo sério a ser estudado no extenso rol de conhecimentos da bruma intelectual pós-modernista. Não é. O físico Alan Sokal demonstrou este fato ao publicar na Social Text, uma conceituada revista norte-americana dedicada à difusão do irracionalismo nas ciências sociais, um artigo com um nome bastante sugestivo e pomposo: “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica.” Carregado de jargão pseudo-científico e alegando o fim da objetividade nas ciências, o fracasso da visão de mundo organizacionista e advogando uma nova era de conhecimento, o texto nada mais é do que uma robusta paródia de todo o quiproquo dos órfãos de Deleuze. Mas, para os editores da Social Text, fazia todo o sentido do mundo.

O Ícaro pós-moderno adeja tranqüilamente pelos ares ainda intoxicados com o fantasma do positivismo. Sem obstáculos, apropriando-se do que lhe convém e esquivando-se de forma rasteira dos óbvios desafios que as leis naturais impõem às suas asas, parece haver pouco que preocupe o vôo suave sobre as correntes de ar quente. Mas esta serenidade não há de se prolongar. Cedo ou tarde, quando a febre do relativismo cultural passar e o método científico, julgado morto nos cânones de Deleuze, continuar a erguer aviões cada vez mais velozes e seguros aos céus, as asas de Ícaro revelarão sua fragilidade intrínseca. Mal planejadas, suas hastes carecem de aerodinâmica e suas plumas são incapazes de sustentar o peso de seu corpo. Então, nosso ícone alado chocar-se-á com um Boeing em pleno vôo, um monstro de metal, borracha, combustível, armações precisas e intricados mecanismos que transpiram complexidade organizada - um Boeing cujo nome é realidade.

O nobre dobrador de palavras

Porque, como manda o velho manual de clichês amorosos, cada pessoa que passa pela nossa vida deixa a sua marca; leva um pouco da gente, deixa um pouco de si. Tu sabes que desprezo frases prontas e outros frutos do senso comum, mas dessa vez tenho de admitir, é difícil não lembrar de ti.

A imprecisão do bordão fica por conta de subestimar a grossura do pedaço da tua carne que ficou em mim, da mudança que não posso atribuir a qualquer outro fator que não seja a tua presença constante.

Não esqueceste apenas um simples pedacinho por aqui. Além dos quilos de tecido morto que deixamos um no corpo do outro durante todo este tempo, a tua impressão ficou gravada a ferro quente na minha alma, deixando fundo na pele uma marca que, ao aguçar dos olhos, grita, em alto e bom tom; Saudade.

Catarse na Goethe

June 8, 2007

O título não era lá essas coisas, fato.

Mas já comemorei menos por mais.

Ontem, e na madrugada de hoje, comemorei mais, muito mais, por menos, bem menos.

O corpo mole, as pernas quebradas, a garganta doída, o lado esquerdo do peito vermelho de tanto socá-lo com o punho direito. Aliviado, cansado e feliz. Menos pelo título, mais por tudo. Era bem do que eu precisava.

Valeu Colorado, pela garra.

Valeu Lady Murphy, pega folga.

Valeu Corujão, por tardar mas nunca falhar.

E, no final das contas, ainda somos donos do mundo…

Nota Mental: A próxima namorada tem que ser colorada. Nada contra as gremistas, muito bonitas por sinal. Mas esse é o tipo de momento que só tem a ganhar com a boa companhia. 

Das utopias

June 7, 2007

Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!

 

Mário Quintana 

Agora é oficial

A Lady Murphy acordou. Depois de um longo sono, ontem de noite, descabelada, de ressaca e tpm.

Espero que hoje ela descanse e deixe o colorado jogar.

 

Enquanto isso, no primeiro mundo…

June 6, 2007

Na esteira do aquecimento global, o BIRD fez uma proposta genial pra arrefecer os ânimos do caos climático. Senão vejamos:

"A expectativa do banco é que seja criado, ou pelo menos formatado, um fundo internacional, abastecido pelos países ricos, que possa comprar os certificados de carbono que seriam gerados principalmente nos países tropicais."
Folha d S.Paulo (5/6) 

Funciona mais ou menos assim: os países tropicais (leia-se miseráveis) ganham "créditos de carbono" com a redução do desmatamento. Enquanto isso, os países ricos, que já não tem o que desmatar, compram os créditos de carbono do terceiro mundo para abatê-los na quota de redução de emissões de gases estufa.

Se eu entendi bem, o terceiro mundo ganha dinheiro pra preservar a floresta e o primeiro mundo paga pra anular os efeitos benéficos da preservação das florestas, mantendo os níveis de CO2 na mesma.

Agora, cá com meus botões, fico a me perguntar… qual vai ser o lastro do crédito de carbono?

Prevejo o Brasil dando calote e emitindo créditos de carbono falsos. Sem contar a especulação do carbono. Qualquer fumacinha na Amazônia e o preço do crédito vai às alturas, pra compensar a pouca oferta.

E o mais engraçado, na mesma matéria:

"Além de vencer todas as barreiras políticas para que um mercado de carbono forte possa se estabelecer, ninguém ainda sabe ao certo como tudo isso poderia ser montado."

E depois eu é que sou confuso…

 

Porque Carl Sagan é O Cara

June 5, 2007

Terra, a 6 bilh�µes de km de dist�¢ncia.

Terra,  a 6 bilhões de Km no espaço.

"(…) Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (…)"

Carl Sagan (1934 - 1996)

Dia estranho…

June 4, 2007

Tem dias em que tudo parece fazer sentido.

E que essa lorota de pêndulo é só coisa da minha cabeça.

Que nem tudo que hoje oscila, há de para sempre oscilar. 

Mas só parece…

Na real, devo estar do ápice direito do ciclo do pêndulo. Ou esquerdo. Tanto faz.