Os filhos do intelectualismo francês, órfãos de Deleuze, têm pavor da objetividade, da clareza, da unidade textual e da argumentação limpa e sucinta. Tudo o que escrevem é vago, impreciso, pernóstico, truncado e, não raro, sem sentido. Não é que não haja conteúdo algum permeando a retórica engomada e nauseante em questão, mas as proposições teóricas jazem tão profundamente enterradas num lamaçal de tão complicado palavreado, que resgatar qualquer informação torna-se tarefa digna de Homero. Embora, neste caso, não exista recompensa à altura do esforço, posto que quando o núcleo de conhecimento envolto pelo jargão pós-modernista é exposto, tudo o que sobra são, com freqüência assustadora, hipóteses pálidas e sem vida, repetitivas e insossas.
A impressão geral é de que o embrulho de palavras cuidadosamente escolhidas para tecer uma rede impenetrável de entroncamentos de vocábulos e orações invertidas tem o único objetivo de esconder a fragilidade da tese. E isso é celebrado como uma típica manifestação da era pós-moderna, uma mímica mal feita do caos do universo, da análise do todo, das idéias que nascem e morrem sem nunca tangenciar a realidade, a inexistência de padrões e métodos, e, sobretudo, do sentido dúbio da verdade e da invalidade do real.
Mas há algo de distintamente louvável nesta atitude negligente para com a objetividade da palavra. Há uma coerência entre o discurso empregado pela massa pós-moderna, vago, difuso, e a maneira pelo qual o transmitem.
Pouca coisa é tão comovente quanto o esforço lúcido de acadêmicos que abraçaram honestamente o pós-modernismo no início de sua formação intelectual e mostram-se, no auge da experiência, incapazes de gravar nos seus alunos impressão maior do que a vasta imprecisão. Alguns, após terem desperdiçado décadas de estudos pesarosos e toneladas de preciosa massa cinzenta decifrando o idioma deleuziano, dedicam-se a passar à frente os conhecimentos que desenterraram das covas mais obscuras das academias francesas de forma inteligível para seus alunos. Este é um erro fatal, pois, ao retirar a grossa casca de proteção das teorias pós-modernistas, seu verdadeiro sentido fica exposto, deixando a fragilidade à vista de todos. A coisa faz-se tão óbvia que até os alunos de graduação, com seus olhos amadores, são capazes de perceber a inocência e frouxidão das teses.
Aproveitando-se da carência de mecanismos que possam pôr a prova o corpus teórico elencado no âmbito do relativismo cultural e do pós-modernismo, os órfãos de Deleuze fazem pesquisa científica com as entranhas. A ciência pós-moderna não requer premissas, prescinde de continuidade lógica, não há um conjunto de teses que a precede, pois carece de qualquer apelo prévio à razão. O pós-modernismo sustenta-se sobre si mesmo, apropria-se do que lhe convém e entrega muito pouco de volta como substrato das pesquisas realizadas sob a sua égide.
E seus súditos crescem como se expande a erva daninha, aproveitando-se de espaços desocupados, agarrando cada fatia de mistério existente no mundo e lhe conferindo todo o valor poético que, dizem, a ciência lhes usurpou. Deturpam conceitos que não compreendem, em especial da física moderna, apropriando-se deles com raro consentimento de quem de fato entende algo de mecânica quântica.
Seria de se supor que é necessário ao menos ter talento ou treinamento para convencer alguém de que há algo sério a ser estudado no extenso rol de conhecimentos da bruma intelectual pós-modernista. Não é. O físico Alan Sokal demonstrou este fato ao publicar na Social Text, uma conceituada revista norte-americana dedicada à difusão do irracionalismo nas ciências sociais, um artigo com um nome bastante sugestivo e pomposo: “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica.” Carregado de jargão pseudo-científico e alegando o fim da objetividade nas ciências, o fracasso da visão de mundo organizacionista e advogando uma nova era de conhecimento, o texto nada mais é do que uma robusta paródia de todo o quiproquo dos órfãos de Deleuze. Mas, para os editores da Social Text, fazia todo o sentido do mundo.
O Ícaro pós-moderno adeja tranqüilamente pelos ares ainda intoxicados com o fantasma do positivismo. Sem obstáculos, apropriando-se do que lhe convém e esquivando-se de forma rasteira dos óbvios desafios que as leis naturais impõem às suas asas, parece haver pouco que preocupe o vôo suave sobre as correntes de ar quente. Mas esta serenidade não há de se prolongar. Cedo ou tarde, quando a febre do relativismo cultural passar e o método científico, julgado morto nos cânones de Deleuze, continuar a erguer aviões cada vez mais velozes e seguros aos céus, as asas de Ícaro revelarão sua fragilidade intrínseca. Mal planejadas, suas hastes carecem de aerodinâmica e suas plumas são incapazes de sustentar o peso de seu corpo. Então, nosso ícone alado chocar-se-á com um Boeing em pleno vôo, um monstro de metal, borracha, combustível, armações precisas e intricados mecanismos que transpiram complexidade organizada - um Boeing cujo nome é realidade.